Em Mídia, Poder e Manipulação, Noam Chomsky explora o papel da mídia como instrumento de poder e controle social, evidenciando como a comunicação de massa serve para moldar a opinião pública em favor de interesses econômicos e políticos das elites. Chomsky parte da premissa de que a mídia não é apenas um veículo neutro de informação, mas um sistema estruturado para manter o status quo e promover narrativas convenientes para aqueles que detêm o poder. Para ele, a imprensa tradicional funciona mais como um “sistema de propaganda” do que como um mecanismo de informação imparcial, influenciando o que as pessoas pensam e como percebem o mundo.
O autor apresenta o conceito de “modelo de propaganda”, desenvolvido junto com Edward S. Herman, que descreve como os meios de comunicação filtram as informações e moldam o discurso público. Esse modelo propõe que cinco filtros principais determinam o conteúdo das notícias: o porte e a propriedade dos veículos de comunicação, a dependência de publicidade como fonte de receita, a dependência de informações fornecidas pelo governo e por corporações, a crítica e oposição limitadas por especialistas alinhados aos interesses dominantes e o anticomunismo ou outras ideologias dominantes que funcionam como lentes ideológicas. Esses filtros atuam de forma sistemática para excluir, distorcer ou enfatizar notícias de acordo com interesses econômicos e políticos, e não com base na relevância ou verdade factual.
Chomsky argumenta que, ao longo da história, a mídia tem desempenhado um papel crucial na manipulação da percepção pública em questões fundamentais, como guerras, crises econômicas e políticas internas. Ele exemplifica isso com casos em que governos e corporações moldaram narrativas para justificar intervenções militares, privatizações e políticas impopulares. A cobertura da mídia frequentemente marginaliza vozes dissidentes, simplifica questões complexas e cria consensos artificiais, levando o público a aceitar passivamente decisões políticas que muitas vezes não atendem aos seus interesses.
Outro ponto central da obra é a análise de como a mídia trata os conflitos internacionais. Chomsky evidencia que a cobertura de guerras e intervenções militares tende a refletir os interesses das potências dominantes, enquanto as atrocidades cometidas por aliados ou interesses estratégicos são minimizadas ou ignoradas. Ele ilustra isso com comparações entre conflitos em diferentes regiões do mundo, mostrando como a violência de aliados estratégicos é frequentemente apresentada como legítima, enquanto a de inimigos é amplamente condenada. Essa seletividade na cobertura não apenas informa de forma enviesada, mas também molda a moral coletiva, criando uma narrativa de “bem contra mal” que favorece políticas expansionistas e intervencionistas.
Chomsky dedica atenção também ao papel da mídia digital e corporativa contemporânea, embora grande parte do livro seja baseada em contextos mais antigos, ele antecipa tendências que se intensificaram com a internet: a concentração de propriedade e o poder de conglomerados sobre a informação aumentam a capacidade de controle sobre a opinião pública. Plataformas e canais de comunicação são muitas vezes corporativos, dependentes de publicidade e de influências políticas, reproduzindo mecanismos de propaganda semelhantes aos tradicionais, mas agora em escala global.
Além da crítica à mídia tradicional, Chomsky ressalta a importância da consciência crítica e do engajamento cívico. Ele defende que a resistência à manipulação passa pelo questionamento constante das fontes de informação, pela busca de perspectivas alternativas e pelo fortalecimento de meios de comunicação independentes e comunitários. Para Chomsky, a democratização da informação é essencial para que a população possa participar de decisões políticas e sociais de forma mais informada e autônoma. A educação midiática, a leitura crítica e a análise de diferentes narrativas tornam-se ferramentas indispensáveis para resistir à manipulação e à concentração de poder.
O livro conclui que a mídia, longe de ser neutra, é uma ferramenta central para a manutenção de hierarquias sociais e políticas. Ela molda a percepção pública, legitima decisões controversas e limita a diversidade de ideias e vozes no espaço público. Chomsky enfatiza que compreender esses mecanismos não é apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade prática para qualquer sociedade que almeje maior justiça social e participação democrática. O autor, com clareza e argumentação rigorosa, fornece um alerta permanente sobre os perigos do poder concentrado na informação e sobre a necessidade de vigilância constante do público em relação ao que consome como notícia.
Em suma, Mídia, Poder e Manipulação é uma obra fundamental para entender a relação entre comunicação, poder e sociedade. Chomsky revela como os meios de comunicação de massa não apenas refletem, mas constroem a realidade social e política, e como cidadãos críticos podem buscar contrabalançar esses mecanismos para garantir maior transparência e justiça na esfera pública. O livro continua sendo uma referência essencial para estudiosos, jornalistas e leitores interessados em compreender como a informação pode ser usada para influenciar, controlar e moldar o pensamento coletivo.
Autor: Diego Velázquez

