“Poema Sujo”, escrito por Ferreira Gullar em 1976, é uma obra emblemática da literatura brasileira, que combina memória, política e experiência existencial em um texto de intensidade poética e urgência histórica. O livro nasceu em um contexto de exílio do autor, que vivia em Buenos Aires devido à repressão política instaurada no Brasil pela ditadura militar. Essa condição de afastamento forçado da terra natal é um dos elementos centrais da obra, influenciando tanto o tom quanto a temática, que transitam entre lembrança íntima e denúncia social.
O poema, longo e contínuo, não segue uma estrutura formal rígida. Sua organização é livre, misturando prosa e verso, como se cada estrofe fosse um fragmento de pensamento ou lembrança que se acumula, formando um fluxo quase caótico, mas profundamente coerente no efeito emocional que provoca. Essa liberdade formal reflete o estado de espírito do autor: a inquietação de alguém que se vê separado de seu país, confrontado com a violência e a injustiça, e que busca, na escrita, uma forma de sobrevivência e registro.
O texto inicia com uma reflexão sobre a própria linguagem e a experiência sensorial do poeta. Gullar explora o contato com o mundo físico, descrevendo paisagens, objetos, cheiros, cores e sons, mas sempre com um filtro pessoal, quase íntimo, que transforma cada observação em memória e emoção. Essa atenção ao detalhe cotidiano cria um efeito de proximidade, permitindo que o leitor sinta a densidade da vida observada, desde o ambiente natural até o espaço urbano, carregado de histórias de pessoas comuns. Através dessas imagens, o autor constrói uma narrativa afetiva do seu país, registrando tanto a beleza quanto a dor.
A memória pessoal se entrelaça com o relato histórico e político. O poema é, em muitos momentos, uma crônica do Brasil sob a ditadura, marcada pela censura, pela repressão e pelo medo. Gullar narra episódios que lembram a violência e a injustiça social, mas faz isso de maneira fragmentada, como se os acontecimentos não pudessem ser contados de forma linear. Essa fragmentação é intencional: ela reflete a dificuldade de capturar a complexidade da experiência humana em um contexto de sofrimento coletivo. Cada verso ou bloco de verso funciona como um registro, uma marca de testemunho que recusa o esquecimento.
A dimensão política do poema não é apenas denúncia, mas também afirmação da memória e da identidade. Ao descrever o Brasil, mesmo à distância, o autor reafirma sua ligação com a terra natal e com seu povo. Ele não escreve apenas sobre eventos, mas sobre sensações, dores e alegrias compartilhadas, tornando a obra uma celebração do que existe de mais vital na experiência humana. Há uma consciência do tempo histórico, mas também uma atenção ao instante presente, à experiência concreta do indivíduo diante do mundo.
A construção poética em “Poema Sujo” é marcada por um tom visceral, quase físico. O autor não se limita a imagens ou conceitos, mas envolve o leitor em uma experiência sensorial intensa. O corpo e o mundo são apresentados de forma crua, sem filtro, o que dá ao poema uma força emocional muito particular. Essa intensidade está presente tanto nas descrições de paisagens quanto nas recordações de infância, nas lembranças de familiares ou na percepção das cidades e pessoas que Gullar encontra no exílio. Tudo é vivido com uma atenção absoluta, quase obsessiva, e transformado em linguagem poética.
Outro elemento marcante da obra é a forma como o poeta combina o universal e o pessoal. Embora “Poema Sujo” seja profundamente enraizado no Brasil e em suas particularidades históricas e sociais, ele aborda experiências humanas universais: o exílio, a saudade, o medo, a violência, o amor, a beleza da vida cotidiana. Essa combinação permite que o leitor de qualquer lugar se identifique com a obra, reconhecendo nela a tensão entre fragilidade e resistência, entre perda e memória.
Por fim, a obra é também um ato de resistência estética. A escrita de Gullar rompe com convenções formais, com expectativas de linearidade narrativa ou coerência rígida, e propõe uma experiência de leitura intensa e envolvente, que exige participação emocional e intelectual. O poema se transforma, assim, em um espaço de afirmação da liberdade individual e coletiva, um testemunho da necessidade de falar e lembrar mesmo em tempos de silêncio e repressão.
Em resumo, “Poema Sujo” é uma obra multifacetada que combina memória, experiência sensorial e reflexão política em um fluxo poético contínuo. É um registro íntimo e histórico do Brasil, escrito a partir do exílio, que articula denúncia, celebração da vida cotidiana e busca de identidade. A força do poema está na intensidade da linguagem e na capacidade de transformar vivências pessoais em experiência universal, mantendo sempre um diálogo entre passado, presente e futuro. A obra de Gullar permanece como um marco da literatura brasileira, exemplo de poesia comprometida com a verdade e com a resistência.
Autor: Diego Velázquez

