Franco Douglas Lima Dias passou a infância sem saber que enxergava mal. Não havia consulta, não havia triagem, não havia nenhum mecanismo que identificasse o problema antes que ele avançasse. Quando o diagnóstico finalmente chegou, o ceratocone já havia progredido além do ponto em que o tratamento poderia ter sido mais eficaz. Essa história é pessoal, mas não é singular. Ela se repete, com variações, em milhões de trajetórias de crianças brasileiras que dependem exclusivamente do sistema público de saúde para ter acesso a qualquer tipo de cuidado especializado.
O Projeto Visão em Dia existe, em grande parte, porque esse sistema ainda não consegue alcançar todos os que precisam. Não porque os profissionais de saúde sejam negligentes ou porque as políticas públicas ignorem completamente o problema. Mas porque há uma distância real entre o que o sistema oferece e o que chegaria a ser necessário para garantir acesso universal a serviços de saúde preventiva, incluindo a saúde ocular, para crianças em idade escolar.
Cada criança atendida pelo programa que nunca havia passado por um exame de vista é, ao mesmo tempo, um caso resolvido e um dado sobre o tamanho dessa distância.
Por que a saúde ocular infantil ficou de fora da agenda preventiva?
O Brasil avançou significativamente nas últimas décadas em algumas áreas da saúde preventiva infantil. A cobertura vacinal, o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento nos primeiros anos de vida e os programas de triagem neonatal são exemplos de conquistas concretas. A saúde ocular, no entanto, não seguiu o mesmo caminho. Não existe, na maior parte dos municípios brasileiros, uma triagem visual sistemática e obrigatória para crianças em idade escolar dentro da rede pública.
O resultado é que o diagnóstico de problemas visuais em crianças depende, na prática, de três fatores: a iniciativa da família em buscar atendimento, a percepção do professor de que algo está errado e a disponibilidade de serviços especializados acessíveis. Quando esses três fatores não se alinham, o problema simplesmente não é encontrado. E na maior parte das famílias atendidas pelo Projeto Visão em Dia, nenhum dos três havia funcionado antes da chegada do programa.
O que acontece com uma criança que chega ao ensino fundamental sem enxergar direito?
A resposta mais direta está no desempenho escolar. Ler, copiar do quadro, acompanhar uma explicação visual, todas essas atividades dependem de acuidade visual adequada. Quando essa condição não está presente e não é corrigida, a criança começa a acumular lacunas de conteúdo que se aprofundam com o tempo. O que parece um problema de comportamento ou de dedicação é, frequentemente, um problema de saúde não tratado.

Franco Douglas Lima Dias viveu essa experiência. Chegou à adolescência sem diagnóstico, com dificuldades escolares que ninguém associava à sua visão, e desenvolveu uma condição que poderia ter sido tratada de forma mais eficaz se identificada anos antes. O Projeto Visão em Dia nasceu, entre outras razões, para que outras crianças não repitam esse percurso.
O que a triagem dentro da escola resolve que o sistema convencional não consegue?
Quando o exame vai até a escola, a barreira de acesso desaparece. A família não precisa sair do trabalho, pagar transporte, navegar por um sistema de agendamento ou conhecer previamente a necessidade do serviço. A criança é atendida no ambiente que já frequenta, por uma equipe que chega preparada para identificar condições que vão além da miopia simples.
Nas ações do Projeto Visão em Dia, esse modelo revelou casos que o sistema convencional não havia alcançado. Crianças com ceratocone, condição que exige equipamentos específicos para diagnóstico e que raramente é rastreada em triagens básicas, foram identificadas em alunos de escolas regulares e da APAE de Ferraz de Vasconcelos. Para Franco Douglas Lima Dias, esses diagnósticos representam exatamente o tipo de intervenção que o projeto foi criado para fazer: chegar antes que o problema avance além do ponto em que o tratamento ainda pode ser mais eficaz.
O que ainda falta para que toda criança brasileira tenha acesso a um exame de vista?
A resposta envolve pelo menos duas frentes. A primeira é estrutural: a criação de protocolos de triagem visual sistemática dentro das escolas públicas, integrados à rotina escolar e com respaldo de políticas públicas que garantam continuidade e escala. A segunda é operacional: enquanto essa estrutura não existe, iniciativas que levam o atendimento diretamente às escolas e instituições continuam sendo o caminho mais eficaz para alcançar quem mais precisa.
O Projeto Visão em Dia ocupa esse segundo espaço com consistência. Mais de 5 mil estudantes atendidos, cerca de 2 mil óculos distribuídos e 18 unidades de ensino contempladas são números que mostram o que é possível fazer dentro das limitações do cenário atual. Para Franco Douglas Lima Dias, cada novo atendimento é também um argumento concreto de que o problema existe, que tem solução e que a solução pode chegar até quem precisa, quando alguém decide ir até lá.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

