A narrativa acompanha Antoine Roquentin, um homem que vive sozinho na fictícia cidade de Bouville enquanto trabalha em uma pesquisa histórica. Sua rotina aparentemente comum começa a ser perturbada por uma sensação cada vez mais intensa de estranhamento diante das coisas, das pessoas e de sua própria existência. Esse estado recebe o nome de “náusea” e se transforma no centro da experiência do personagem.
A náusea de Roquentin não é simplesmente uma doença física. Ela representa uma crise profunda diante da existência. Objetos cotidianos, que normalmente parecem familiares e naturais, passam a revelar para ele uma realidade desconcertante: eles simplesmente existem, sem uma razão necessária ou um significado previamente determinado. A experiência provoca no personagem uma sensação de absurdo e desconforto.
Um dos principais temas do livro é justamente a contingência da existência. Roquentin percebe que as coisas poderiam não existir e que não há necessariamente uma finalidade superior organizando o mundo. Essa descoberta elimina algumas das certezas que sustentavam sua maneira de enxergar a realidade. Sartre transforma essa experiência filosófica em literatura, fazendo com que o leitor acompanhe a crise do personagem por meio de suas reflexões e de seu diário.
A obra também questiona as relações humanas e as formas pelas quais as pessoas tentam atribuir sentido à própria vida. Roquentin observa personagens que procuram segurança em suas profissões, relações, ideologias ou lembranças do passado. Em contraste, ele se vê diante da dificuldade de encontrar uma justificativa definitiva para sua própria existência.
Nesse sentido, Náusea antecipa ideias que Sartre desenvolveria posteriormente em seus textos filosóficos. A liberdade, a responsabilidade individual, a ausência de uma essência humana previamente estabelecida e a necessidade de construir significado por meio das próprias escolhas aparecem de maneira literária no romance. O livro não apresenta essas questões como uma teoria abstrata, mas como uma experiência psicológica angustiante.
Por isso, Náusea continua sendo uma das portas de entrada mais importantes para o pensamento existencialista. O romance mostra que a percepção de que a existência não possui um sentido pronto pode ser inicialmente assustadora, mas também pode abrir espaço para a liberdade. Ao confrontar o vazio e a contingência, Roquentin começa a perceber que o significado da vida não precisa ser encontrado como algo já existente: ele pode ser construído.

