Publicado inicialmente em folhetins entre 1911 e 1912 e lançado em livro em 1915, Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, é um dos romances mais importantes da literatura brasileira pré-modernista. A obra acompanha Policarpo Quaresma, funcionário público extremamente patriota que acredita profundamente nas possibilidades de desenvolvimento do Brasil. Seu nacionalismo, porém, é apresentado de maneira crítica e irônica, pois suas ideias entram constantemente em choque com uma sociedade marcada por interesses políticos, desigualdade, burocracia e corrupção.
Policarpo acredita que o Brasil possui enormes riquezas naturais e culturais e que seus problemas poderiam ser enfrentados por meio da valorização de suas próprias características. Seu patriotismo é tão intenso que ele chega a defender mudanças consideradas absurdas por seus contemporâneos, como a adoção do tupi como língua oficial do país. A proposta provoca consequências profissionais e sociais para o personagem, mas também revela uma das principais estratégias de Lima Barreto: utilizar o exagero para questionar a distância entre o discurso patriótico e os problemas concretos enfrentados pela população brasileira.
Depois do episódio envolvendo a língua nacional, Quaresma procura colocar suas convicções em prática de outras maneiras. Ele passa a dedicar-se à agricultura e acredita que o aproveitamento adequado das terras brasileiras poderia contribuir para melhorar a situação econômica do país. Entretanto, encontra dificuldades provocadas pela burocracia, pelas condições sociais e pela própria estrutura de poder existente no campo. O fracasso de seus projetos demonstra que o patriotismo idealizado pelo protagonista não é suficiente para transformar uma realidade muito mais complexa do que ele imaginava.
A trajetória de Policarpo também se relaciona diretamente com acontecimentos políticos da Primeira República. Durante a Revolta da Armada, ele acredita que o governo e as instituições nacionais devem ser defendidos e acaba se envolvendo com as forças ligadas ao presidente Floriano Peixoto. O personagem espera encontrar no poder público a mesma preocupação com o interesse nacional que orienta suas próprias ações. No entanto, a experiência revela uma realidade marcada pelo autoritarismo e pela violência, fazendo com que seu idealismo entre novamente em conflito com os fatos.
A crítica de Lima Barreto não se limita à política. O autor também aborda as diferenças sociais, o preconceito, a burocracia e a dificuldade enfrentada por indivíduos que não se encaixam nos padrões estabelecidos. Personagens como Olga, afilhada de Policarpo, ajudam a ampliar a perspectiva do romance e permitem discutir as limitações impostas às mulheres e as desigualdades presentes na sociedade. A linguagem de Barreto, ao mesmo tempo irônica e acessível, contribui para aproximar o leitor dos problemas cotidianos e para questionar instituições que frequentemente aparecem revestidas de autoridade.
Triste Fim de Policarpo Quaresma permanece atual justamente porque transforma o fracasso de um patriota idealista em uma crítica ampla ao Brasil de seu tempo. Policarpo não é ridicularizado simplesmente por amar o país, mas porque sua visão excessivamente idealizada não consegue lidar com as contradições da realidade. Ao mostrar o choque entre patriotismo, interesses políticos e desigualdade social, Lima Barreto constrói uma obra que continua relevante para refletir sobre nacionalismo, cidadania e sobre a distância que pode existir entre aquilo que uma sociedade afirma defender e a maneira como efetivamente funciona.

