Publicado em 1942, Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, é uma das obras mais importantes da historiografia brasileira do século XX. O livro procura compreender como estruturas formadas durante o período colonial contribuíram para explicar características econômicas, sociais e políticas do Brasil. Em vez de tratar a colonização apenas como uma sequência de acontecimentos históricos, o autor busca identificar a lógica que orientou a ocupação e a exploração do território. A obra tornou-se uma referência para estudos sobre a formação histórica e econômica do país.
Um dos conceitos centrais do livro é o chamado sentido da colonização. Para Caio Prado Júnior, a colonização portuguesa no Brasil esteve fortemente vinculada à produção de gêneros destinados ao mercado externo e à obtenção de vantagens econômicas para a metrópole. Essa perspectiva ajuda a explicar a importância assumida pela grande propriedade rural, pela produção voltada à exportação e pelo trabalho escravizado. O autor interpreta esses elementos não como características isoladas, mas como partes de uma estrutura econômica que influenciou profundamente o desenvolvimento brasileiro.
A escravidão ocupa posição fundamental nessa interpretação. O sistema colonial dependia do trabalho de milhões de pessoas escravizadas, principalmente africanos e seus descendentes, para sustentar atividades agrícolas e outras formas de produção. Caio Prado Júnior analisa essa estrutura dentro do funcionamento geral da economia colonial, mostrando como a exploração da mão de obra estava relacionada à produção voltada para o comércio externo. A abordagem contribuiu para ampliar a compreensão de que a escravidão não foi apenas uma instituição social, mas também um dos pilares econômicos da formação do país.
Outro ponto importante está na análise da organização do território e das atividades econômicas. O autor observa a importância da agricultura de exportação, da mineração, da pecuária e de outras atividades desenvolvidas em diferentes regiões durante a colonização. Essas atividades contribuíram para a ocupação do território e para a formação de núcleos populacionais, mas não eliminaram a forte dependência da economia colonial em relação às necessidades do mercado externo. A diversidade regional aparece, portanto, ligada a uma estrutura histórica mais ampla que condicionou o desenvolvimento econômico brasileiro.
A obra também procura compreender os efeitos sociais dessa organização econômica. A formação de uma sociedade profundamente desigual, a concentração da propriedade e a posição subordinada de grande parte da população são analisadas em conexão com o modelo colonial. Para Caio Prado Júnior, muitas dificuldades posteriores do Brasil não podem ser compreendidas completamente sem considerar as estruturas construídas durante a colonização. Essa interpretação ajudou a consolidar uma tradição de estudos que relaciona história econômica, organização social e desenvolvimento nacional.
Formação do Brasil Contemporâneo permanece relevante porque propõe uma interpretação abrangente sobre as origens de problemas e características que atravessaram diferentes períodos da história brasileira. A obra integra economia, sociedade, território e política para explicar como o passado colonial deixou marcas duradouras no país. Embora a historiografia posterior tenha desenvolvido novas interpretações e debates sobre diversos pontos apresentados pelo autor, o livro continua sendo uma referência fundamental para compreender o pensamento histórico brasileiro. Sua leitura permite analisar como as estruturas econômicas e sociais construídas durante a colonização contribuíram para moldar o Brasil contemporâneo.

