Publicado em 1975, Catatau é um dos romances mais ousados e experimentais de Paulo Leminski, combinando elementos de poesia, filosofia, história e humor irreverente. A obra desafia estruturas narrativas tradicionais, misturando ensaio, diário, epístola e fluxo de consciência, refletindo a personalidade multifacetada do autor e seu interesse por linguagens híbridas e transgressoras.
O livro começa com uma premissa inusitada: René Descartes, o célebre filósofo francês do século XVII, teria aterrissado no Brasil colonial, mais especificamente em Salvador, em plena época da colonização portuguesa. A narrativa parte dessa hipótese fantástica para explorar, de forma caótica e divertida, a relação entre pensamento racional e realidade histórica, entre a lógica cartesiana e o cotidiano brasileiro, marcado pela mistura de culturas, a desordem social e o calor do trópico.
Leminski utiliza essa viagem imaginária de Descartes como um pretexto para subverter o tempo e o espaço, brincando com anacronismos, jogos de palavras e reflexões filosóficas. O filósofo, conhecido por sua máxima “penso, logo existo”, se vê confrontado com um ambiente caótico e imprevisível, que contradiz a razão sistemática que ele defende. Descartes encontra um Brasil “selvagem”, cheio de contradições, onde a lógica estrita do pensamento europeu parece entrar em colapso diante da complexidade social, cultural e natural da colônia.
O livro é estruturado de forma fragmentada, com frases curtas, observações soltas, diálogos imaginários e reflexões que se alternam entre o cômico, o erudito e o absurdo. Leminski explora a língua de forma intensa, muitas vezes desconstruindo palavras, criando neologismos ou adaptando expressões para o contexto brasileiro. Essa abordagem transforma o próprio ato de ler em uma experiência estética: não se trata apenas de seguir uma história linear, mas de sentir o ritmo, o som e a inventividade da linguagem. A leitura exige atenção e disposição para flutuar entre o pensamento filosófico e a poesia concreta, entre a crítica social e a diversão.
Entre os temas centrais do livro, destaca-se a crítica à imposição de modelos europeus em territórios colonizados. Descartes, representante máximo da razão e do método científico, é colocado num ambiente que não obedece à lógica cartesiana. Essa colisão entre o racional e o caótico evidencia as tensões entre colonizadores e colonizados, entre teoria e prática, e sugere uma reflexão sobre o etnocentrismo e o preconceito cultural. O autor, por meio do humor e do exagero, expõe a singularidade do Brasil e, ao mesmo tempo, questiona a autoridade do pensamento europeu como único parâmetro de conhecimento.
Além disso, Catatau é também uma obra de autoficção filosófica: Leminski se insere nas reflexões de forma indireta, comentando sobre literatura, poesia e linguagem, misturando suas próprias ideias com as de Descartes. A obra apresenta uma sensação de diário intelectual, em que o leitor acompanha, quase que em tempo real, as observações e devaneios do filósofo fictício. Essa técnica permite que Leminski explore temas como identidade, percepção, subjetividade e a própria natureza do pensamento.
O humor é outro elemento fundamental do romance. Leminski brinca com a erudição, ridiculariza situações absurdas e combina registro culto e coloquial, tornando o livro simultaneamente sofisticado e acessível. A ironia e o sarcasmo permeiam toda a narrativa, seja na crítica à lógica cartesiana, seja na representação do Brasil colonial ou na desconstrução de convenções literárias. O leitor é constantemente desafiado a rir e refletir ao mesmo tempo, reconhecendo a inteligência e a inventividade do autor.
A linguagem fragmentada, poética e experimental também reflete a influência de vanguardas literárias, do concretismo e da poesia marginal, movimentos que marcaram a produção cultural brasileira do período. Leminski se distancia de narrativas lineares e convencionais, propondo um romance que é ao mesmo tempo livro de filosofia, poema em prosa e sátira histórica. Essa multiplicidade de registros reforça o caráter inovador da obra e a coloca como referência da literatura experimental brasileira.
Em resumo, Catatau não é apenas um romance sobre a visita imaginária de Descartes ao Brasil; é um experimento literário que combina filosofia, história, humor e poesia, rompendo barreiras de gênero e estilo. A obra provoca o leitor a pensar sobre razão, cultura, linguagem e identidade, ao mesmo tempo em que oferece momentos de diversão e absurdo. Paulo Leminski cria um espaço literário único, em que o Brasil é visto através de lentes críticas, irônicas e poéticas, e em que a leitura se transforma em um ato de experiência estética intensa, desafiadora e prazerosa.

