O romance O Retorno, publicado em 2011 por Dulce Maria Cardoso, é uma obra marcante da literatura contemporânea portuguesa que retrata um dos episódios mais complexos da história recente de Portugal: o regresso dos chamados “retornados” das antigas colónias africanas após o fim do império colonial. Com uma narrativa sensível, profunda e ao mesmo tempo acessível, o livro aborda temas como identidade, perda, deslocamento e reconstrução de vida.
A história é narrada pelo jovem Rui, um adolescente que vive em Angola com a sua família durante os últimos momentos do domínio colonial português. Rui leva uma vida aparentemente normal, marcada pela rotina familiar, pela escola e pelas amizades. No entanto, o cenário político começa a mudar rapidamente com a intensificação da luta pela independência angolana, criando um clima de medo e instabilidade.
Com o avanço do processo de descolonização que culminaria após a Revolução dos Cravos, milhares de portugueses residentes nas colónias africanas foram obrigados a abandonar tudo o que haviam construído ao longo de décadas. Entre essas famílias está a de Rui, que vê sua vida virar completamente de cabeça para baixo quando surge a necessidade urgente de deixar Angola.
A partida é marcada pela pressa, pela incerteza e pelo sentimento profundo de perda. A família precisa abandonar a casa, os bens materiais, os amigos e toda a vida que conheciam. O pai de Rui permanece em Angola por mais tempo, tentando resolver pendências, enquanto Rui, sua mãe e sua irmã partem para Portugal. Esse momento de separação simboliza o início de uma fase dolorosa de adaptação.
Ao chegar a Portugal, Rui e sua família enfrentam uma realidade muito diferente da que imaginavam. Longe da ideia de retorno triunfante à “terra natal”, encontram dificuldades, preconceitos e uma sensação constante de não pertencimento. Muitos portugueses veem os retornados com desconfiança, como se fossem estrangeiros dentro do próprio país.
Sem recursos e sem casa, a família acaba hospedada em um hotel improvisado para acolher os recém-chegados. O ambiente é marcado por histórias semelhantes de perda e recomeço, onde diversas famílias tentam reorganizar suas vidas enquanto lidam com o trauma do deslocamento. Nesse contexto, Rui observa o comportamento dos adultos, percebe as tensões familiares e começa a compreender a complexidade da situação em que todos se encontram.
Um dos elementos mais marcantes da narrativa é o olhar do protagonista. Como adolescente, Rui mistura ingenuidade e sensibilidade ao narrar os acontecimentos. Seu ponto de vista revela não apenas os fatos históricos, mas também os sentimentos contraditórios que acompanham a mudança radical de vida. Ao mesmo tempo em que sente medo e saudade, ele também observa com curiosidade o novo ambiente e as pessoas que passam a fazer parte de sua realidade.
A ausência do pai torna-se um dos grandes pontos de tensão da história. A família vive na expectativa de notícias e no medo de que algo tenha acontecido. Essa espera simboliza a fragilidade emocional vivida por muitos retornados naquele período, que enfrentavam não apenas dificuldades materiais, mas também profundas rupturas afetivas.
Ao longo da narrativa, O Retorno constrói um retrato humano e sensível de um momento histórico frequentemente tratado apenas sob a perspectiva política. O romance mostra que por trás das grandes mudanças históricas existem histórias individuais marcadas por dor, esperança e resistência.
Outro aspecto importante do livro é a reflexão sobre identidade. Rui percebe que não se sente completamente pertencente a Portugal, embora seja oficialmente português. Ao mesmo tempo, Angola — o lugar onde cresceu — já não é mais acessível. Esse sentimento de estar “entre dois mundos” reflete a experiência de milhares de pessoas que tiveram suas vidas transformadas pelo processo de descolonização.
A escrita de Dulce Maria Cardoso é direta, emocional e envolvente. A autora utiliza uma linguagem simples, mas carregada de significado, permitindo que o leitor acompanhe de perto as emoções do protagonista. A narrativa consegue equilibrar momentos de tristeza, humor e reflexão, tornando a leitura intensa e profundamente humana.
Além de contar uma história individual, O Retorno também contribui para a preservação da memória histórica de um período pouco discutido fora de Portugal. A obra evidencia como eventos políticos e sociais podem impactar profundamente a vida das pessoas comuns.
Em síntese, O Retorno é um romance poderoso sobre deslocamento, memória e reconstrução de identidade. Ao narrar a experiência de uma família obrigada a recomeçar do zero, o livro revela as consequências humanas do fim do império colonial português e convida o leitor a refletir sobre pertencimento, perda e esperança.
Por sua relevância histórica e literária, a obra consolidou-se como um dos romances contemporâneos mais importantes da literatura portuguesa, oferecendo um retrato sensível de uma geração marcada pelo exílio involuntário e pela necessidade de reinventar a própria vida.
Autor: Diego Velázquez

