Publicado originalmente em 1958, Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro, de Raymundo Faoro, tornou-se uma das obras mais conhecidas da interpretação histórica e política do Brasil. O livro procura compreender como as estruturas de poder foram formadas e preservadas ao longo da história brasileira, desde a organização política portuguesa até o desenvolvimento das instituições nacionais. Em vez de apresentar apenas uma sequência de acontecimentos, Faoro busca identificar mecanismos sociais e políticos que, segundo sua interpretação, ajudaram a moldar a relação entre Estado, grupos dirigentes e sociedade.
Um dos conceitos centrais da obra é o de estamento burocrático. Faoro utiliza essa ideia para analisar a formação de um grupo ligado ao controle das estruturas administrativas e políticas do Estado. Em sua interpretação, esse grupo teria desempenhado papel importante na manutenção de posições de poder e influência, atravessando diferentes períodos históricos. O autor relaciona esse processo à tradição política portuguesa e argumenta que determinadas práticas administrativas foram incorporadas ao funcionamento do Estado brasileiro.
A análise começa ainda em Portugal, examinando a formação do Estado português e a maneira como a Coroa organizou sua estrutura administrativa. Para Faoro, compreender esse processo é fundamental para entender características que posteriormente apareceriam no Brasil. A transferência das instituições portuguesas para a colônia e, mais tarde, a construção do Estado independente são apresentadas como partes de uma trajetória histórica na qual relações entre poder político, administração e interesses econômicos tiveram grande importância.
Ao analisar o período colonial, o Império e a República, o autor procura demonstrar como determinadas estruturas de poder sobreviveram mesmo diante de mudanças políticas. A Independência, a Proclamação da República e outras transformações institucionais não são tratadas simplesmente como rupturas completas. Na interpretação de Faoro, grupos e mecanismos de poder poderiam se adaptar às novas circunstâncias e preservar formas de influência. É justamente essa continuidade que ocupa lugar importante em sua explicação sobre a formação política brasileira.
A obra também discute o patrimonialismo, conceito utilizado para analisar a dificuldade de separar completamente interesses públicos e interesses privados dentro de determinadas estruturas políticas. Faoro relaciona essa questão à formação histórica do Estado brasileiro e às práticas de apropriação de recursos e posições públicas por grupos ligados ao poder. O conceito passou a ser amplamente utilizado nos estudos sobre política e sociedade no Brasil, embora a interpretação de Faoro também tenha sido objeto de debates e críticas acadêmicas.
Mais do que uma narrativa sobre personagens políticos específicos, Os Donos do Poder apresenta uma interpretação abrangente sobre a formação das instituições brasileiras e suas relações com as elites dirigentes. A obra permanece relevante para estudantes e pesquisadores interessados em história, ciência política, sociologia e formação do Estado porque propõe uma explicação de longa duração para fenômenos políticos brasileiros. Ao discutir burocracia, patrimonialismo, Estado e grupos de poder, Raymundo Faoro criou uma das interpretações mais influentes sobre a trajetória política do Brasil no século XX.

