Publicado em 1966, A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga, é um dos romances mais importantes da literatura brasileira de caráter alegórico. A narrativa se passa em Manarairema, uma pequena cidade isolada cuja rotina é subitamente alterada pela chegada de homens desconhecidos. Sem explicações claras, esses estrangeiros começam a ocupar espaços, impor regras e provocar mudanças que os moradores não conseguem compreender totalmente.
O clima inicial é de curiosidade e desconfiança, mas logo se transforma em medo. Os habitantes percebem que perderam o controle sobre a própria cidade, embora a dominação não aconteça por meio de uma guerra aberta. A opressão se instala de forma gradual, silenciosa e ambígua, o que torna a ameaça ainda mais inquietante. José J. Veiga constrói uma atmosfera em que o absurdo surge dentro do cotidiano, aproximando o romance de tradições como o realismo fantástico e a literatura do estranhamento.
Um dos episódios mais marcantes é a invasão de cães e, posteriormente, de bois ruminantes que passam a ocupar as ruas e os espaços públicos. Esses animais funcionam como símbolos de uma força opressora difícil de definir racionalmente. A presença deles altera os hábitos da população, limita a circulação das pessoas e cria a sensação de que a cidade foi tomada por algo ao mesmo tempo concreto e inexplicável.
A obra foi publicada durante os primeiros anos da ditadura militar brasileira, e muitos críticos veem nela uma metáfora das formas de autoritarismo e controle social. A falta de transparência das autoridades, o medo de questionar os invasores e a adaptação passiva de parte da população lembram mecanismos comuns em regimes opressivos. No entanto, o romance evita referências políticas diretas, o que amplia seu alcance simbólico e permite diferentes interpretações.
O estranhamento é um elemento central da narrativa. Os personagens tentam encontrar explicações lógicas para os acontecimentos, mas o mundo parece escapar às regras habituais da realidade. Esse recurso literário faz com que o leitor compartilhe a perplexidade dos moradores de Manarairema e perceba como a opressão pode desorganizar não apenas a vida social, mas também a capacidade de compreender o que está acontecendo.
Com linguagem econômica e grande força simbólica, A Hora dos Ruminantes transforma uma pequena cidade do interior em cenário de uma reflexão universal sobre medo, submissão e perda de autonomia. José J. Veiga mostra como o autoritarismo pode se infiltrar lentamente no cotidiano e como a aceitação do absurdo abre espaço para a ampliação da violência e do controle. Por essa combinação de alegoria política e atmosfera inquietante, o romance permanece como uma das obras mais originais da ficção brasileira do século XX.

