O milho cultivado no verão já foi o principal responsável pela produção do cereal no Brasil. No entanto, Wander Aguilera Almeida observa que a redução gradual dessa safra alterou o calendário de oferta e a forma como o mercado se organiza ao longo do ano. Atualmente, a maior parte do milho brasileiro é colhida na segunda safra.
A mudança ocorreu ao longo de décadas. Com a expansão da soja e o desenvolvimento de tecnologias para o cultivo após a oleaginosa, o milho safrinha ganhou escala no Centro-Oeste, enquanto a área do milho verão diminuiu em várias regiões.
A primeira safra, contudo, permanece relevante em estados do Sul e do Sudeste, onde abastece agroindústrias e mercados locais. Conforme o previsto, na safra 2026/27, a semeadura do milho verão foi realizada primeiramente nos estados do Sul, seguindo a tendência habitual para o mês de setembro. A seguir, serão apresentadas as razões pelas quais essa safra perdeu espaço e os efeitos decorrentes para a comercialização.
Por que a primeira safra de milho perdeu espaço no Brasil?
O principal motivo para a redução do consumo é a competição com outros produtos, especialmente a soja. Durante o verão, a oleaginosa geralmente apresenta maior liquidez, custos de produção mais baixos e maior possibilidade de acesso às exportações, o que faz com que muitos produtores a priorizem em áreas disponíveis.
O sistema soja seguida de milho safrinha permite o aproveitamento do mesmo solo em dois períodos ao ano. Enquanto o milho de verão utiliza a terra por um período mais longo, a soja é plantada em um ciclo menor. Esse raciocínio favoreceu a concentração do cereal na segunda safra, sobretudo nas regiões com climas mais quentes e ciclos de precipitação pluviométrica mais extensos.
Ademais, os elevados custos de fertilizantes, sobretudo nitrogenados, também impactam negativamente o milho de verão. Wander Aguilera Almeida destaca que, em períodos de margens restritas, a decisão entre soja e milho na primeira safra passa a ser ainda mais influenciada pela relação entre custo e preço esperado.

Como a redução da primeira safra afeta o mercado de milho?
Com a redução de milho colhido no início do ano, o abastecimento interno depende em maior grau da segunda safra, cujo aporte ao mercado se dá a partir de junho. Tal cenário pode resultar em períodos de oferta mais restrita no primeiro semestre, sobretudo em regiões com significativa demanda de agroindústrias e de usinas de etanol que operam de forma contínua ao longo do ano.
O resultado é evidenciado nos preços regionais. Estados que apresentam elevado consumo de milho para aves e suínos, porém baixa produção na primeira safra, necessitam buscar o cereal em outras regiões, o que resulta no aumento dos custos logísticos. De acordo com Wander Aguilera Almeida, essa dinâmica reforça a importância do planejamento de compras e vendas ao longo do ano.
A concentração na safra também aumenta a exposição ao risco climático. Os problemas enfrentados na segunda safra, tais como o atraso no plantio ou a falta de chuva no outono, vêm afetando uma parcela cada vez maior da produção nacional do cereal. Em consequência, o mercado tem se tornado mais sensível às condições do outono.
Um calendário em transformação
Em análise final, a redução da produção de milho no ciclo verão reflete as estratégias adotadas pelos produtores, que ajustaram significativamente o calendário do cereal no Brasil. A segunda safra adquiriu um papel de destaque; no entanto, a primeira safra permanece como uma opção estratégica para determinadas regiões.
Ao acompanhar a área de milho verão, o empresário do agronegócio Wander Aguilera Almeida aponta que é possível antecipar os movimentos de preço no primeiro semestre, especialmente nas praças com grande consumo do grão.
A escolha entre o plantio da soja e do milho na primeira safra seguirá determinada por fatores econômicos, como custos, preços e riscos. É importante destacar que cada decisão tomada no campo continuará influenciando a disponibilidade do milho ao longo do ano, bem como o preço ao qual ele chegará aos compradores.

