Publicado em 1986, Com os Meus Olhos de Cão, de Hilda Hilst, é uma das obras mais intensas e enigmáticas da autora. O livro acompanha a experiência de Amós Kéres, um professor de matemática que abandona gradualmente a lógica racional e mergulha em uma crise de identidade e percepção. A narrativa não se organiza como um romance tradicional: ela se aproxima de um longo delírio filosófico, em que pensamento, sensação e linguagem se misturam de forma fragmentada.
Amós vive um processo de ruptura com o mundo cotidiano. A matemática, símbolo da ordem e da certeza, deixa de oferecer respostas para suas inquietações mais profundas. O personagem passa a questionar o sentido da existência, a natureza da realidade e os limites da consciência humana. Essa transformação é apresentada não como descoberta iluminadora, mas como uma experiência de vertigem, em que o eu perde suas referências e se aproxima da desintegração.
O título da obra é altamente simbólico. Ver “com os olhos de cão” sugere uma percepção instintiva, corporal e não racional do mundo. O cão representa uma forma de conhecimento anterior às categorias intelectuais, ligada ao faro, ao desejo e à matéria viva. Ao tentar enxergar por essa perspectiva, Amós busca escapar das convenções da linguagem e da razão, aproximando-se de uma experiência mais bruta e imediata da existência.
A linguagem é o elemento mais radical do livro. Hilda Hilst utiliza frases interrompidas, repetições, associações inesperadas e mudanças bruscas de ritmo, criando uma escrita que parece acompanhar o movimento da mente em crise. O texto desafia a leitura linear e frequentemente coloca o leitor diante da impossibilidade de distinguir pensamento, memória e imaginação. A autora transforma a própria falha da linguagem em tema central: as palavras tentam alcançar algo essencial, mas revelam continuamente sua insuficiência.
A obra também dialoga com questões místicas e metafísicas. Amós procura uma espécie de verdade absoluta, algo que esteja além da experiência comum e das explicações científicas. No entanto, essa busca não conduz a uma resposta definitiva. O romance permanece em estado de tensão permanente entre transcendência e animalidade, espírito e corpo, silêncio e palavra.
Mais do que a história de um homem em crise, Com os Meus Olhos de Cão é uma investigação literária sobre os limites da razão e da linguagem. Hilda Hilst leva ao extremo sua proposta de experimentar a escrita como espaço de risco e transformação. O resultado é uma obra exigente, mas de enorme força poética e filosófica, considerada uma das expressões mais radicais da literatura brasileira contemporânea.

