“Os Últimos Dias de Hitler”, escrito pelo historiador britânico Hugh Trevor-Roper, é um relato minucioso e baseado em testemunhos diretos sobre os momentos finais de Adolf Hitler e do regime nazista em Berlim, entre abril e maio de 1945. Publicado originalmente em 1947, o livro combina investigação histórica rigorosa com narrativa detalhada de uma das quedas mais dramáticas do século XX.
O livro começa contextualizando a situação do Terceiro Reich no início de 1945. Trevor-Roper descreve um cenário de derrota iminente: as forças soviéticas avançavam pelo leste, ocupando cidades e cercando Berlim, enquanto os Aliados ocidentais avançavam pelo oeste. A Alemanha nazista estava em colapso econômico, militar e moral. Dentro desse contexto, Hitler, isolado no Führerbunker — um complexo subterrâneo sob a Chancelaria em Berlim — permanecia obcecado por continuar a guerra, mesmo sabendo que a derrota era inevitável.
O autor detalha a vida no bunker, mostrando Hitler cada vez mais afastado da realidade. Trevor-Roper baseia-se em depoimentos de oficiais, secretários e médicos próximos ao ditador, revelando seu comportamento errático, paranoico e obsessivo. Hitler passava longas horas em reuniões com seus generais, emitindo ordens militares sem fundamento estratégico, enquanto a cidade à sua volta era destruída por bombardeios e combates intensos. O historiador enfatiza a atmosfera claustrofóbica e desesperadora do bunker, onde membros da alta cúpula nazista — como Joseph Goebbels, Heinrich Himmler e Martin Bormann — conviviam com medo, lealdade e resignação.
Um dos pontos centrais do livro é a relação de Hitler com Eva Braun. Trevor-Roper descreve a rotina do casal no bunker e a decisão de ambos de cometer suicídio. Essa escolha, segundo o autor, foi tomada de forma consciente, refletindo a determinação de Hitler em não se render e preservar sua imagem até o fim. O relato detalha os últimos dias de Hitler, incluindo suas refeições, suas conversas com seguidores próximos e a preparação de seus testamentos políticos e pessoais, nos quais designava sucessores e deixava instruções sobre a destruição de documentos comprometedores.
Trevor-Roper também descreve o suicídio de Hitler em 30 de abril de 1945. Segundo testemunhos colhidos pelo historiador, Hitler ingeriu cianeto e se disparou, enquanto Eva Braun ingeriu apenas o veneno. Seus corpos foram rapidamente queimados no jardim da Chancelaria, conforme suas instruções, para evitar que caíssem nas mãos dos soviéticos. O autor reconstrói detalhadamente o momento, incluindo os relatos de Otto Günsche e Johann Rattenhuber, que presenciaram os preparativos e a execução do ato.
O livro não se limita a Hitler, mas também relata o colapso da liderança nazista. Trevor-Roper narra a situação de Goebbels, que, após a morte de Hitler, assume brevemente o comando simbólico do regime, apenas para levar sua esposa e seus seis filhos a um suicídio coletivo, demonstrando a loucura final e o fanatismo do círculo interno do Führer. O historiador detalha ainda os esforços de fuga de outros líderes, como Himmler, que tentou negociar com os Aliados, e Bormann, que desapareceu durante a evacuação do bunker.
Outro aspecto fundamental da obra é a análise psicológica de Hitler. Trevor-Roper sugere que o ditador estava cada vez mais alienado, vivendo em um mundo de fantasia, no qual suas vitórias passadas e ideais de supremacia racial ainda pareciam reais para ele. O historiador enfatiza a combinação de fanatismo ideológico, vaidade e negação da realidade que caracterizou os últimos dias de Hitler, mostrando como essas características influenciaram as decisões finais do regime.
Trevor-Roper conclui que o colapso de Hitler e do Terceiro Reich foi rápido e inevitável, marcado por violência, desespero e destruição em larga escala. O livro combina rigor histórico com narrativa quase cinematográfica, proporcionando uma visão íntima do Führer e de seus seguidores no momento de sua ruína. “Os Últimos Dias de Hitler” permanece como um dos relatos mais confiáveis e detalhados sobre os últimos momentos do nazismo, sendo referência para historiadores e estudiosos do período.
Em síntese, a obra revela o lado humano, mas também aterrorizante, de Hitler e de sua cúpula, mostrando como a obsessão pelo poder e a recusa em aceitar a realidade levaram a uma destruição completa, tanto de vidas quanto de cidades, e marcaram para sempre a história do século XX.

