A Bolsa Amarela conta a história de Raquel, uma menina sensível e muito imaginativa que vive se sentindo invisível dentro da própria casa. Ela é a filha mais nova de uma família grande e, por isso, escuta o tempo todo que é “pequena demais” para entender as coisas, opinar ou participar de decisões. Os adultos e até os irmãos costumam interrompê-la, mandar que fique quieta ou desvalorizar o que ela sente. Essa falta de espaço e atenção faz Raquel se sentir sozinha e, muitas vezes, triste.
Para lidar com tudo isso, ela começa a guardar dentro de si três grandes vontades, que são como segredos:
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vontade de crescer (para ser respeitada),
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vontade de ser menino (porque percebe que os meninos têm mais liberdade e são mais ouvidos),
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vontade de ser escritora (porque ama inventar histórias e quer criar seus próprios mundos).
Raquel, porém, não consegue falar abertamente sobre essas vontades. Ela sente que seria julgada ou que ninguém a entenderia. Por isso, passa a viver muito no mundo da imaginação, criando histórias e personagens na própria cabeça. A imaginação se torna um refúgio: é nela que Raquel encontra liberdade para ser quem quiser.
A chegada da bolsa amarela
Um dia, Raquel ganha de uma tia uma bolsa amarela, que não era usada por mais ninguém. Para ela, a bolsa vira um objeto muito especial, quase como um “esconderijo”. É ali que ela decide guardar suas vontades, seus sentimentos e seus segredos — como se a bolsa pudesse suportar o peso de tudo o que ela sente e não consegue dizer.
A bolsa passa a representar o seu mundo interior. Quanto mais Raquel sofre ou se sente desvalorizada, mais ela coloca coisas dentro da bolsa, e mais a bolsa vai ficando “cheia”, simbolizando o quanto suas emoções estão acumuladas.
Personagens que ganham vida
Ao longo do livro, a bolsa não guarda apenas objetos: ela passa a guardar também personagens imaginários, que representam conflitos e sentimentos de Raquel.
Um dos principais é o galo Rei, que vivia em uma história inventada por Raquel. Esse galo quer mandar em tudo e ser respeitado, mas sofre porque não consegue ser aquilo que deseja. O galo Rei é importante porque espelha o que Raquel sente: o desejo de ser ouvida, de ter poder sobre a própria vida e de ser reconhecida.
Além do galo, aparecem outros elementos imaginários que vão se misturando ao cotidiano da menina. Essas figuras criadas por ela funcionam como uma forma de Raquel conversar consigo mesma, organizar suas ideias e enfrentar seus medos. A narrativa mistura realidade e fantasia de um jeito muito natural, mostrando como o pensamento de uma criança pode ser profundo e simbólico.
Conflitos dentro de casa
Enquanto isso, Raquel continua vivendo situações em que é ignorada ou diminuída. Ela se irrita ao perceber que os irmãos e adultos sempre têm “razão” e que sua opinião é tratada como bobeira. Ela também observa como existe diferença entre o tratamento dado a meninos e meninas, o que aumenta sua vontade de ser menino — não porque odeie ser menina, mas porque sente que assim teria mais liberdade e respeito.
A vontade de crescer surge pelo mesmo motivo: ela acredita que, se fosse mais velha, teria mais autonomia e ninguém a impediria de fazer o que quer. Mas crescer, para Raquel, não é apenas questão de idade: é um símbolo de querer ser reconhecida como alguém com sentimentos importantes.
A escrita como liberdade
A vontade de ser escritora é uma das mais fortes. Raquel ama inventar histórias e tem uma criatividade enorme. Porém, quando tenta mostrar isso, nem sempre recebe apoio. Mesmo assim, ela continua escrevendo, criando e imaginando. A escrita, para ela, é um espaço de liberdade, porque é ali que ela pode controlar o mundo e dar voz ao que sente.
Transformação e amadurecimento
Com o passar do tempo, Raquel começa a perceber que suas vontades, embora intensas, não precisam ser um peso para sempre. Ela aprende a lidar com elas de forma mais saudável e entende que nem tudo se resolve da maneira que ela imaginava.
Ela também começa a compreender melhor sua própria identidade. A bolsa amarela vai deixando de ser um lugar de esconder tudo e passa a ser um símbolo de autoconhecimento: Raquel aprende a se escutar, a se aceitar e a reconhecer o que realmente deseja.
O livro mostra que amadurecer não é apenas crescer fisicamente, mas sim entender seus sentimentos, suas frustrações e seus sonhos. Raquel vai encontrando seu lugar no mundo aos poucos, percebendo que pode ter voz, sim, e que seus desejos não são errados.
Conclusão
No final, Raquel entende que pode viver melhor sendo quem é, sem precisar se esconder ou carregar tantas vontades como um segredo doloroso. Ela aprende que suas vontades podem mudar com o tempo e que o mais importante é ter coragem de se reconhecer, se valorizar e buscar sua liberdade.
Autor: Rodis Gonçalves Bitencurt

