Paulo Roberto Gomes Fernandes relatou que, em julho de 2021, um alerta técnico acendeu um sinal vermelho para a indústria global de petróleo e gás. O Trans-Alaska Pipeline System, um dos maiores oleodutos em operação no planeta, passou a apresentar riscos concretos à sua integridade estrutural em razão do degelo acelerado do permafrost. Com aproximadamente 1.300 quilômetros de extensão, o oleoduto liga Prudhoe Bay, no extremo norte do Alasca, ao terminal marítimo de Valdez, em Prince William Sound, no sul do estado norte-americano.
O problema concentrou-se em um trecho elevado da linha, onde o degelo progressivo do solo permanentemente congelado provocou o deslocamento do terreno e comprometeu estacas de sustentação responsáveis por manter o oleoduto estável. Em uma seção específica, pouco mais de oito metros da tubulação passaram a sofrer esforços anormais, com suportes se torcendo e dobrando.
O papel do permafrost e os efeitos das mudanças climáticas
O permafrost é um tipo de solo que permanece congelado durante todo o ano e cobre cerca de 25% da superfície terrestre do Hemisfério Norte, especialmente em regiões da Rússia, Canadá e Alasca. Sua composição varia de pequenos fragmentos de gelo a grandes massas congeladas, podendo alcançar espessuras de centenas de metros. Durante décadas, esse solo foi considerado uma base naturalmente estável para grandes obras de infraestrutura.
Entretanto, o aumento das temperaturas médias no hemisfério norte alterou esse cenário. No verão, o permafrost passou a aquecer de forma mais intensa, iniciando processos de degelo que liberam gases antes retidos e reduzem drasticamente a capacidade de suporte do solo. Estudos científicos já indicavam, à época, que esse fenômeno tenderia a se intensificar ao longo dos anos, afetando diretamente estruturas construídas sobre essas bases.
Soluções emergenciais adotadas nos Estados Unidos
Diante do risco de um acidente com potencial de desastre ambiental em uma região remota e extremamente sensível, as autoridades norte-americanas aprovaram medidas emergenciais. O Departamento de Recursos Naturais do Alasca autorizou a instalação de cerca de 100 termos-sifões adicionais na encosta afetada. Esses dispositivos funcionam como trocadores térmicos passivos, retirando calor do solo e ajudando a manter o permafrost congelado.
Embora os termos-sifões já fossem utilizados ao longo do traçado do oleoduto desde sua inauguração, em 1977, essa foi a primeira vez que eles passaram a ser empregados como solução defensiva contra um processo efetivo de deslizamento de encosta. A operadora Alyeska Pipeline Service confirmou, em documentos técnicos, que o degelo já representava uma ameaça real à integridade da linha principal e que as intervenções visavam conter um agravamento do problema.
A experiência brasileira como referência técnica
Embora o cenário do Alasca seja singular, a situação serviu como estudo de caso para outras regiões do mundo, inclusive o Brasil. Não pelo degelo em si, inexistente em território nacional, mas pelos desafios estruturais relacionados à estabilidade de oleodutos aparentes submetidos a esforços transversais, deslocamentos do solo e variações ambientais severas.

Nesse contexto, ganhou relevância a experiência acumulada por Paulo Roberto Gomes Fernandes, fundador e presidente da Liderroll, que há mais de uma década defende no Brasil metodologias construtivas alternativas para dutos aparentes, dispensando o enterramento tradicional.
Essas soluções foram apresentadas e debatidas em fóruns técnicos no Brasil e no exterior, inclusive em reuniões na Agência Nacional do Petróleo e em encontros internacionais do setor, como a OTC, em Houston. Na avaliação de Paulo Roberto Gomes Fernandes, os regulamentos brasileiros avançaram ao tratar da construção de dutos, mas ainda careciam de maior detalhamento técnico no que diz respeito aos chamados acessórios estruturais, como bases, suportes e sistemas de absorção de esforços.
Estacas helicoidais e suportes de roletes como alternativa estrutural
Ao analisar o caso do Alasca, Paulo Roberto Gomes Fernandes destacou que os danos observados dificilmente ocorreriam caso fossem aplicadas soluções estruturais já patenteadas pela engenharia brasileira. Entre elas, o uso de estacas helicoidais cravadas em profundidade adequada para resistir simultaneamente a esforços de tração e compressão, combinadas com suportes dotados de roletes de giro livre.
Segundo ele, esse tipo de geometria estrutural permite que esforços laterais de cisalhamento, provocados por deslocamentos do solo, sejam dissipados de forma eficiente, resultando em cargas internas praticamente nulas sobre a estrutura principal.
Um alerta global para a engenharia de dutos
O episódio do Trans-Alaska Pipeline, em 2021, reforçou a necessidade de revisão constante de critérios técnicos utilizados em grandes obras lineares, especialmente em um cenário de mudanças climáticas aceleradas. Mais do que um problema local, tratou-se de um alerta global sobre a importância de soluções construtivas capazes de antecipar e absorver impactos ambientais extremos.
Paulo Roberto Gomes Fernandes notou que a lição deixada pelo Alasca é clara: a engenharia de dutos precisa evoluir não apenas em materiais, mas sobretudo em concepção estrutural, privilegiando sistemas mais adaptáveis, seguros e resilientes, capazes de garantir a integridade das operações mesmo em ambientes sujeitos a transformações profundas.
Autor: Rodis Gonçalves Bitencurt

