“A Festa”, de Ivan Ângelo, é um conto que integra a coletânea A Festa e Outros Contos, abordando de maneira crítica e irônica a sociedade brasileira durante o regime militar. A narrativa se passa em um ambiente de festa, onde diferentes personagens transitam e interagem, revelando suas personalidades, ambições e hipocrisias. Com um olhar aguçado para as contradições sociais, Ivan Ângelo constrói um retrato da elite e de seus privilégios, contrastando-os com a dura realidade da maioria da população.
O conto utiliza uma estrutura narrativa fragmentada, refletindo o caos e a efervescência do evento. Os diálogos entre os personagens são carregados de subtexto, expondo tensões políticas e sociais da época. A festa, que deveria ser um momento de celebração, torna-se um espaço onde emergem rivalidades, traições e desejos reprimidos, funcionando como uma metáfora da própria sociedade brasileira.
Ao longo da história, Ivan Ângelo evidencia como os convidados, pertencentes à alta sociedade, vivem alheios à realidade do país. O autor critica a superficialidade e o conformismo das classes privilegiadas, que, enquanto se divertem, ignoram as injustiças e a repressão política ao seu redor. O ambiente de festa, repleto de excessos e aparências, se contrapõe à angústia silenciosa de personagens que percebem o vazio de suas existências.
A narrativa também sugere uma sensação de desconforto e iminência de algo inesperado. Pequenos detalhes, como olhares, gestos e conversas truncadas, criam uma atmosfera de tensão crescente. Ivan Ângelo, com sua prosa afiada e bem construída, conduz o leitor por um jogo de aparências e revelações, desvendando pouco a pouco a hipocrisia por trás da festa.
No contexto da ditadura militar, A Festa pode ser lido como uma crítica velada ao regime e às elites que o sustentavam. A alienação e a indiferença dos personagens refletem o comportamento de grande parte da sociedade, que preferia ignorar as arbitrariedades do período em prol do conforto pessoal. A narrativa, portanto, não apenas retrata uma celebração, mas também questiona os valores e comportamentos da época.
A linguagem do conto é fluida, alternando momentos de leveza com passagens densas e reflexivas. Ivan Ângelo utiliza metáforas e ironia para expor as contradições dos personagens, tornando a leitura envolvente e crítica ao mesmo tempo. O ritmo dinâmico contribui para a sensação de efemeridade da festa, simbolizando o caráter passageiro das ilusões e da falsa harmonia social.
Ao final, A Festa deixa uma sensação ambígua no leitor. Por um lado, há o brilho e a excitação do evento; por outro, a consciência de que tudo ali é transitório e ilusório. O conto se encerra sem grandes resoluções, mas com uma forte mensagem sobre a desconexão entre as aparências e a realidade, evidenciando a fragilidade das relações humanas e sociais.
Com essa abordagem, Ivan Ângelo transforma uma simples festa em um microcosmo da sociedade brasileira, expondo, com maestria, suas complexidades e contradições. O conto, apesar de breve, carrega um impacto duradouro, deixando o leitor refletindo sobre as camadas de significado por trás das interações dos personagens.