“A Morte de Virgílio”, de Hermann Broch, é um dos romances mais complexos e filosóficos do século XX, publicado em 1945. A obra recria as últimas horas de vida do poeta Virgílio, autor da Eneida, em uma narrativa densa e introspectiva, marcada por reflexões sobre arte, poder e o sentido da existência.
O livro se passa em um único dia, quando Virgílio, gravemente doente, chega a Brundísio, vindo de Atenas. Recebido com honras por ordem do imperador Augusto, ele é levado ao palácio, onde enfrenta febres e alucinações. Durante esse período, o poeta reflete sobre sua vida e obra, sentindo-se cada vez mais insatisfeito com a Eneida, que considera um fracasso em sua missão de buscar a verdade.
A narrativa se divide em quatro partes: Água – A Chegada, Fogo – A Decisão, Terra – A Espera e Éter – O Retorno. Cada uma dessas seções representa uma fase da consciência de Virgílio enquanto ele se aproxima da morte, oscilando entre a realidade, delírios e debates internos sobre a transitoriedade da arte e a futilidade da glória.
Um dos momentos centrais do romance é a decisão de Virgílio de destruir a Eneida, pois acredita que a poesia não cumpriu seu papel de revelar a verdade. No entanto, Augusto intervém, convencendo-o a preservar a obra, pois ela se tornou parte da identidade do Império Romano. Esse embate reflete a tensão entre arte e poder, entre o artista e as exigências do mundo político.
A prosa de Broch é altamente lírica e experimental, utilizando fluxos de consciência, imagens simbólicas e passagens meditativas que desafiam as convenções narrativas. O livro mergulha profundamente na psique de Virgílio, misturando filosofia, poesia e questionamentos metafísicos sobre a criação e a mortalidade.
Considerado uma obra-prima do modernismo literário, “A Morte de Virgílio” transcende a biografia do poeta e se torna uma reflexão universal sobre o papel da arte e a busca pela verdade. Hermann Broch cria um romance exigente, mas recompensador, que continua a inspirar leitores e estudiosos da literatura mundial.