“O Livro das Ignorãças”, de Manoel de Barros, é uma obra que celebra o desimportante, o pequeno e o esquecido, transformando o banal em poesia. Publicado em 1993, esse livro reafirma a estética única do poeta mato-grossense, que desconstrói a linguagem e nos ensina a enxergar beleza no que é desprezado pelo olhar comum. Com versos que parecem reinventar a gramática e subverter a lógica tradicional, Manoel de Barros brinca com as palavras, revelando um universo onde a ignorância não é ausência de conhecimento, mas sim um estado de pureza e descoberta.
A poesia de Manoel de Barros em “O Livro das Ignorãças” mergulha na infância, na natureza e na simplicidade. Seu eu lírico encontra riqueza no que é considerado insignificante: insetos, pedras, galhos, poças d’água, objetos quebrados. A partir dessa perspectiva, a linguagem se torna um campo fértil para novas invenções, e as palavras ganham sentidos inusitados, quase infantis, como se fossem recriadas por alguém que ainda não foi corrompido pelas regras impostas pelo mundo adulto.
O título da obra já sugere seu propósito: celebrar o não saber como uma forma legítima de conhecimento. Para o poeta, ignorar as regras e as verdades estabelecidas não é uma falha, mas sim um caminho para a reinvenção do olhar e da palavra. O livro propõe que, ao desaprender, nos aproximamos mais da essência da existência. É uma espécie de manifesto poético que desafia a lógica cartesiana e dá voz ao absurdo e ao lúdico.
A infância é uma presença constante nos versos, não apenas como tema, mas como postura diante da vida. A visão da criança, que enxerga o mundo com encantamento e curiosidade, é a lente que guia a poesia de Manoel de Barros. Ele resgata o olhar ingênuo e brincalhão que encontra profundidade no que os adultos desprezam. Assim, o poeta transforma o chão rachado, o sapo imóvel, a folha seca e o rio barrento em matéria poética, ressignificando a paisagem do Pantanal, que sempre foi um dos seus territórios imaginativos mais marcantes.
A linguagem fragmentada, o uso intencional de palavras “erradas” e a construção de metáforas inesperadas fazem de “O Livro das Ignorãças” uma experiência única de leitura. O poeta não se preocupa em seguir normas gramaticais rígidas; ao contrário, ele inventa palavras, mistura tempos verbais e altera estruturas sintáticas para expressar um pensamento que não cabe na linguagem convencional. Esse jogo linguístico não é mero experimentalismo, mas uma tentativa de capturar a poesia que existe naquilo que escapa às regras formais.
O humor e a ironia também marcam presença na obra, muitas vezes de forma sutil. Manoel de Barros sabe rir da seriedade do mundo, e essa leveza se manifesta em imagens inusitadas e paradoxais. Seus versos podem parecer simples à primeira vista, mas escondem uma profundidade que nos faz refletir sobre a maneira como enxergamos a vida e a linguagem.
A natureza, outro elemento essencial em sua poesia, aparece em “O Livro das Ignorãças” não como um cenário estático, mas como parte viva da existência humana. A relação do eu lírico com rios, árvores, pedras e animais não é de dominação ou exploração, mas de convivência e aprendizado. O poeta não descreve a natureza como algo externo, mas como um espaço de comunhão e descoberta.
No final, a obra de Manoel de Barros nos convida a desaprender, a desapegar das verdades absolutas e a reencontrar a poesia no que é pequeno, esquecido e ignorado. “O Livro das Ignorãças” não é um livro de respostas, mas de perguntas e encantamentos. É um convite para olhar o mundo com olhos novos, para brincar com as palavras sem medo de errar e para encontrar poesia onde menos se espera.