“A Invenção do Passado”, de José J. Veiga, é um romance que transita entre o real e o fantástico, conduzindo o leitor por uma narrativa envolvente e misteriosa sobre memória, identidade e o tempo. A trama acompanha um narrador que retorna à sua cidade natal após muitos anos de ausência e percebe que o local e suas lembranças não são mais como ele os imaginava. O passado, antes fixo em sua mente, parece se remodelar a cada reencontro e a cada história que ouve, criando um jogo intrigante entre o que foi, o que poderia ter sido e o que nunca aconteceu.
Ao longo de sua jornada pela cidade, ele revisita lugares marcantes de sua infância e reencontra personagens que fizeram parte de sua vida. No entanto, conforme conversa com os habitantes e tenta reconstituir a história daquele lugar, percebe que as memórias são fluidas, contraditórias e, por vezes, irreais. Algumas pessoas se lembram de acontecimentos de maneira completamente diferente, enquanto outras parecem esconder verdades que nunca foram ditas. O passado, que deveria ser algo imutável, se transforma constantemente diante dos olhos do protagonista, que passa a questionar até que ponto suas recordações são genuínas ou apenas construções influenciadas pelo tempo e pela nostalgia.
A cidade, por sua vez, se revela um espaço quase onírico, onde os elementos da realidade se misturam com o fantástico de forma sutil e perturbadora. As ruas, as casas e os objetos carregam histórias que nem sempre condizem com o que o protagonista recorda, como se fossem fragmentos de um quebra-cabeça cujas peças mudam de forma à medida que ele tenta montá-lo. Cada nova conversa e cada nova descoberta revelam facetas inesperadas de sua própria história, levando-o a refletir sobre a natureza subjetiva da memória e sobre o poder que as narrativas exercem na construção de nossa identidade.
José J. Veiga conduz a narrativa com maestria, criando um ambiente de estranhamento e inquietação que prende o leitor do início ao fim. Seu estilo conciso e ao mesmo tempo poético contribui para a sensação de que tudo na história é fluido e passível de transformação. O autor não entrega respostas definitivas, mas instiga o leitor a refletir sobre a influência do tempo na maneira como percebemos nossa própria trajetória e sobre a impossibilidade de recuperar um passado tal como foi vivido.
Além da temática da memória, “A Invenção do Passado” também aborda a solidão e o deslocamento. O protagonista, ao regressar à cidade, percebe que já não pertence mais àquele espaço, que sua identidade foi moldada pela ausência e pela distância. A sensação de estrangeirismo se intensifica à medida que ele percebe que o passado que tenta reencontrar talvez nunca tenha existido da forma como se lembrava. O retorno, ao invés de ser um reencontro reconfortante, torna-se um mergulho em um território incerto, onde tudo está sujeito à reinvenção.
A obra se destaca pela maneira como José J. Veiga utiliza o insólito para questionar verdades aparentemente concretas. O autor apresenta uma narrativa em que a memória não é um registro fiel dos acontecimentos, mas sim uma construção mutável, influenciada por emoções, omissões e desejos. Assim, a história se desenrola como um jogo de espelhos, em que cada lembrança reflete uma versão diferente da realidade, tornando-se impossível determinar o que de fato aconteceu.
“A Invenção do Passado” é um romance que convida o leitor a refletir sobre a fragilidade da memória e a forma como moldamos nossa própria história com base em lembranças que, muitas vezes, são recriações inconscientes de nossa mente. José J. Veiga constrói uma narrativa envolvente, repleta de mistério e melancolia, que nos faz questionar até que ponto podemos confiar em nossas recordações e qual é o verdadeiro papel do passado em nossa vida.