“O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam”, de Evandro Affonso Ferreira, é um romance que mergulha na mente de um homem em situação de rua, um intelectual errante que carrega consigo um vasto repertório de citações e reflexões filosóficas. A história se desenvolve a partir do fluxo de consciência do protagonista, um mendigo que, apesar de sua condição miserável, mantém viva sua erudição e sua capacidade de pensar criticamente sobre a vida, a morte, a solidão e a existência humana.
Com uma narrativa fragmentada e poética, o autor constrói um personagem que transita entre a lucidez e o delírio, dialogando com suas memórias, com a cidade e com os pensamentos de Erasmo de Rotterdam, cuja sabedoria ecoa em seus monólogos internos. O mendigo não é um simples marginalizado, mas alguém que já teve uma vida estruturada e que, por razões não totalmente explícitas, foi empurrado para as ruas. Sua mente, no entanto, continua ativa, criando associações inusitadas entre suas próprias experiências e os ensinamentos dos grandes pensadores da humanidade.
A obra se destaca pela linguagem elaborada e pelo estilo peculiar de Evandro Affonso Ferreira, que brinca com a sonoridade das palavras e com a fluidez dos pensamentos. O romance não segue uma estrutura convencional, mas sim um ritmo próprio, que imita o fluxo errante do protagonista e seu olhar peculiar sobre o mundo. Há um lirismo na forma como o autor retrata a miséria e a exclusão social, transformando o discurso do mendigo em uma espécie de resistência intelectual contra o esquecimento e a indiferença da sociedade.
Ao longo da narrativa, o protagonista divaga sobre sua condição, reflete sobre os sentidos ocultos da vida e revisita momentos marcantes de sua trajetória. Seus pensamentos oscilam entre a melancolia e o sarcasmo, entre o desespero e a ironia mordaz. Ele critica a hipocrisia das elites, o vazio das relações humanas e a alienação do mundo contemporâneo, enquanto se apega às palavras de Erasmo como uma âncora para não se perder completamente na loucura e no abandono.
“O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam” é um livro que desafia o leitor, tanto pela sua estrutura narrativa quanto pela densidade de suas reflexões. Evandro Affonso Ferreira constrói uma obra que oscila entre a brutalidade da vida nas ruas e a beleza da filosofia, mostrando como o pensamento e a palavra podem ser formas de resistência mesmo nas condições mais adversas. É um romance que convida à introspecção e à empatia, ao mesmo tempo em que questiona os valores de uma sociedade que marginaliza aqueles que não se encaixam em seus padrões.