“O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati, é um romance existencialista publicado em 1940. A obra aborda temas como o tempo, a espera e o sentido da vida, acompanhando a jornada de um soldado que dedica sua existência a uma ameaça que talvez nunca aconteça.
A história segue Giovanni Drogo, um jovem oficial que recebe sua primeira designação no remoto Forte Bastiani, localizado na fronteira de um deserto vasto e inóspito. Inicialmente, ele planeja permanecer ali por apenas alguns meses, pois sonha com uma carreira brilhante e deseja retornar à cidade para viver plenamente.
No entanto, ao chegar ao forte, Drogo é gradualmente envolvido por sua atmosfera solene e enigmática. Os soldados que ali servem vivem em constante expectativa da chegada dos temidos tártaros, um exército invasor que há séculos nunca apareceu. Essa esperança ilusória de um grande combate mantém a guarnição alerta, mesmo que o tempo passe sem qualquer sinal de guerra.
Conforme os anos se sucedem, Drogo percebe que a vida no forte funciona como um ciclo repetitivo e quase hipnótico. Pequenas rotinas, exercícios militares e a observação do deserto tornam-se sua realidade. Cada vez que pensa em partir, algo o faz adiar sua decisão, seja um possível movimento inimigo ou a sensação de que o grande momento da sua vida está prestes a acontecer.
O romance reflete sobre a passagem do tempo e a alienação do ser humano diante de expectativas que nunca se concretizam. Drogo envelhece dentro das muralhas do forte, sempre acreditando que um dia terá sua grande chance de demonstrar coragem e conquistar glória. No entanto, sua juventude se esvai e ele percebe que desperdiçou sua existência na ilusão de um destino grandioso.
Buzzati utiliza a metáfora do deserto como símbolo da incerteza e da espera interminável. O tempo se arrasta, e o protagonista, assim como seus companheiros de guarnição, vive na esperança de um evento que justifique sua dedicação. Mas essa batalha, tão esperada, talvez nunca chegue.
A escrita de Buzzati é precisa e melancólica, criando uma atmosfera de solidão e resignação. A monotonia do forte contrasta com os sonhos de juventude de Drogo, e a própria paisagem desértica reflete o vazio existencial do protagonista. O romance, muitas vezes comparado a obras de Kafka e Camus, questiona se a vida é movida por escolhas ou por uma aceitação passiva do destino.
No desfecho da história, Drogo, já debilitado pela idade e pela saúde frágil, finalmente recebe a ordem de deixar o forte. Ironicamente, logo após sua partida, os tártaros realmente aparecem no horizonte, mas ele já não faz mais parte daquele mundo. Sua vida foi consumida pela espera, e a glória tão sonhada jamais se concretizou.
“O Deserto dos Tártaros” é uma reflexão profunda sobre o tempo e as ilusões que nos mantêm presos a um ciclo de expectativas e frustrações. Dino Buzzati constrói uma narrativa atemporal, questionando se o sentido da vida está na espera por um grande momento ou na vivência do presente.