“A Filha do Escritor” , de Gustavo Bernardo, é um romance que mistura ficção e metalinguagem para explorar a relação entre literatura, realidade e imaginação. A história gira em torno de Sofia, uma jovem que começa a questionar sua própria existência ao perceber que pode ser apenas um personagem criado pelo seu pai, um escritor.
Desde pequena, Sofia sente que há algo estranho em sua vida. As coisas ao seu redor pareciam acontecer de maneira misteriosa, como se fossem direcionadas por uma força invisível. Conforme cresce, ela passa a desconfiar de que sua realidade pode estar sendo escrita e reescrita por seu pai. O conflito central da narrativa se intensifica quando ela decide confrontá-lo, buscando entender até que ponto tem autonomia sobre suas escolhas ou se tudo o que vive já foi determinado por sua pena.
A obra se desenvolve entre diálogos filosóficos e questionamentos profundos sobre o papel da literatura na construção da identidade. Sofia é uma protagonista forte e reflexiva, que desafia as convenções da própria ficção e tenta escapar do destino que lhe foi imposto. Seu pai, um autor habilidoso, mantém um tom enigmático, nunca revelando completamente a verdade sobre sua filha, deixando sempre no ar uma dúvida sobre o que é real e o que é apenas parte de sua história.
Gustavo Bernardo construiu uma narrativa envolvente, brincando com os limites entre ficção e realidade. O leitor se vê imerso em um jogo literário que lembra obras pós-modernas, onde personagens ganham consciência de sua condição fictícia e tentam desafiar seu criador. A linguagem é fluida, mas contém simbolismo, fazendo com que cada diálogo e reflexão tragam camadas de interpretação.
Ao longo da trama, a relação entre Sofia e seu pai se torna uma metáfora para o próprio ato da escrita. O autor é como um deus literário que cria mundos e personagens, mas até que ponto ele pode controlar tudo? E se um personagem for capaz de pensar por si mesmo? Essas são algumas das perguntas que o livro levanta, desafiando o leitor a compensar a relação entre criação e criador.
O desfecho da história é ambíguo e provoca uma sensação de inquietação, deixando aberta a possibilidade de diferentes interpretações. “A Filha do Escritor” não é apenas uma narrativa sobre um jovem em busca de respostas, mas uma reflexão profunda sobre o poder da literatura e sobre como as histórias que lemos e escrevemos moldam nossa percepção do mundo.